Que sentido fará falarmos em «espírito herético»? Qual o real sentido deste conceito? Talvez o princípio da inquietação, da permanente questionação dessa angústia militante ou, simplesmente, uma (falsa?) consciência do fim: uma vez mais estamos perante o síndroma apocalíptico. Mas não nos referimos a um fim qualquer: trata-se do fim de um ciclo onde o lugar do homem já é medido de outra maneira. Em suma, trata-se de verificar a história de uma ausência. Note-se, contudo, que se trata de uma ausência que não se anuncia, nem tão-pouco se adivinha: é a ausência feita ao sabor de uma longa espera e de toda a contingência que a determina. É no cultivo tácito dessa ausência que se radica o espírito herético. A heresia definitiva cumpre-se na traição: a generalidade do homem contemporâneo é, tal como a do homem romântico, tal como algum do homem das Luzes, traidor de um passado que se esforçou por erguer princípios que não foram construídos para ruir. E esse é o grande drama da história.
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